quinta-feira, 24 de julho de 2008

texto folder

TRAVESSIAS CARIOCAS tem algo de trânsito, de passagem, mas também de reconhecimento da alteridade. Não se trata de uma proposta estética a mais, que visa a sua razão de ser na generalidade ou na panorâmica, mas de uma mostra coletiva que potencializa esse aspecto de troca de poéticas, de autorias, e, ao mesmo tempo, reflete uma declaração de comunhão, de afinidades. Uma verdadeira mostra coletiva no sentido mais extenso da palavra, pois enfatiza a transversalidade estética, as comunicações profundas que existem, ou estão em andamento, entre alguns artistas cariocas de significativo percurso e reconhecimento, cujo território de ação e ponto de partida é o Rio de Janeiro, ainda que a internacionalidade seja a sua outra marca de identidade.

De fato, os 12 artistas reunidos aqui, Barrão, Brigida Baltar, Carlos Bevilacqua, Daisy Xavier, Eduardo Coimbra, Ernesto Neto, Fernanda Gomes, João Mode, Lívia Flores, Marcos Chaves, Raul Mourão, Tatiana Grinberg, quase pertencem a uma mesma geração. Em qualquer caso, somente com algumas pequenas diferenças de aparição, são artistas que desenvolvem seu trabalho em toda a sua dimensão a partir dos finais dos anos 80 e a década seguinte, no umbral do século XX e XXI. A sua contemporaneidade vem marcada pela pluralidade manifesta de horizontes, de suportes e registros. E esta transversalidade é uma parte significativa destas TRAVESSIAS CARIOCAS, de seu exemplo estético – de sua generosidade –, e, ao mesmo tempo, de sua construção e des-construção artística. A mostra coloca poéticas em movimento, fora do domínio completo ou fechado. É uma troca de poéticas e subjetividades. Exploração e especulação estética (sem ranço algum da semântica econômica!) que traduz uma obra aberta; outros caminhos que são, sobretudo, limítrofes.

Há, em TRAVESSIAS CARIOCAS, trabalhos que postulam diversas aproximações: diálogos, sintonias e permutações de signos das diferentes poéticas. Mas, especialmente, talvez haja duas vias preponderantes: aquela dos trabalhos assinados por vários artistas, fazendo algo comum e quase indivisível – às vezes numa tríade convergente –, ou inscrevendo-se numa seqüência que se auto-remete, e aquela que faz da re-leitura ou da aproximação a outra poética uma viagem (diálogo conceitual e formal) de ida e volta; sempre produzindo um certo moto-contínuo estético, pois os interesses dos artistas se deslocam e recebem olhares diferentes, se geram a partir de um local de enunciação compartilhado. Assim, as obras, os trabalhos estéticos, permutam cada vez mais seus signos e significados, são mais porosos, antenados com a cultura visual, o ambiente e o habitat ao qual pertencemos. Neste contexto, deve-se ver a significativa importância desta mostra constelativa sem eixo fixo, regedor – em que a própria curadoria é uma força de diálogo a mais, outro nexo, mais um fio-terra de interlocução –, e sim com pontos cardeais abertos, validados como verdades estéticas plurais, instigantes, quase reversíveis.

Adolfo Montejo Navas

Rio de Janeiro, julho de 2008

Bandeiras

Barrão,
Falamos das pinturas geométricas q remetem a sinalização urbana e dos cartões vermelho e amarelo mas tua opção pelas bandeiras também se aproxima da série de trabalhos que chamo de Fitografias. (Mostrei algumas na Lurixs ano passado e em Lisboa na 3+1). Antes de construí-las em fórmica faço colagens de fitas adesivas sobre papel mesmo.




E o encontro hoje? Vai rolar??

segunda-feira, 21 de julho de 2008

cheguei!!!!!!!

oi pessoal ,

foi mal a demora mas primeiro não entendi nada, alê n de estar viajando fisicamente , o que signinfica que mentalmente esta num estado semelhante, e finalmente na semana passada esta va me mudando nadando em caixas de uma casa para a outra com o conexoes, perdidas, ufa enfim estou de volta, e acbo de entrar nesta estranah ferramenta, ... aliaz espero que este texto chegue a vocês ∆ea que sou meio leiogo nesta avenida, pleo que vi vocês estnao em plena atividade

beijos e abraços neto

sexta-feira, 18 de julho de 2008

quebrando a cabeça

Olá Edu, Tatiana, maravilha de encaixe as observações feitas (colocamos no blogue). Tem um cruzamento além, pois aquelas esculturas de chão do Paço que já jogavam com a representação do espaço mas com os furos vão ligar com esses espaços interiores-arquitetônicos (uma arquitetura íntima que também se ligaria com Neto por outra via...), mas que tratam de questões de habitabilidade, de interiorizações-exteriorizações de corpo e arquitetura. Eu já estou querendo ver mais coisas. Podemos combinar um dia desta semana os três? Abraço e beijos aos dois, Adolfo

Oi Edu, bacana, eu também gosto muito dos seus tacos! Legal ouvir notícias, que bom que as imagens ajudaram. Não tive muito sucesso com o corte de espelhos de vidro - ainda vamos fazer um teste.

Queridos Tati e Adolfo,
ando meio encolhido em casa, mas ligado em todas as conversas.
Achei ótimo a Tati me mandar aquelas imagens. Sempre adorei esse trabalho do puzzle, acho que tem a ver com coisas que eu penso (cá entre nós, sempre pensei que é um trabalho que eu gostaria de ter feito... e... olha aí a chance!). Ele tem a fluidez, que permeia os trabalhos da Tati, uma coisa derretida, escorrida, mas é metal, tem dureza na própria aparência. Só aí já é um paradoxo que me interessa muito, além disso tem uma estrutura na superfície, os encaixes perfeitos do quebra-cabeça, a idéia do jogo. O que será dessas peças se elas se separarem? A poça vira um monte de objetos a procura de um encaixe para assim poderem fluir novamente... É muito legal. Com essas imagens/idéais na cabeça pensei num cruzamento que me parece apropriado. Vou construir uma superfície com tacos de pisos (tais quais os das minhas Peças de Chão que mostrei no Paço), cobrindo uma área no chão da exposição, num formato que remeta a esses desenhos fluidos da Tati. Aqui é um quebra-cabeça de peças que se juntam para sugerir um espaço/ambiente - um novo chão sobre o chão da exposição. Pensei também em abrir alguns furos nessa superfície que possibilitem 'entradas' ou 'saídas' entre essas duas situações. Penso aqui nos espaços reclusos e aberturas nos ambientes da Tati. Quando desenvolver o desenho eu mando.
Beijos e abraços,

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Caros, apartir da correspodência cursada (de João, Barrão, Lívia, Tatiana, Raul) já dá para ver que a idéia de Travessias toca um fundo valioso, não é meramente um recurso para uma agrupação estética. Isso foi bem visto por Amanda e Luiza no começo, e depois mais claro fazendo o projeto com elas, pois é uma coisa tentadora que o conhecimento -como fala Tatiana ou João- esteja tão vinculado a processos de afeto, de proximidade, de escuta do outro. A trama é tão maior, que tudo parece ser um ponto de partida (poderia ter mais jogos de relações, sim, abrir mais o leque de conversas) para algo que pode vir a ser mais. De qualquer forma, o que temos e vemos agora é uma intensificação dessas relações com exemplos precissos, e isso já é emblemático. Há algumas duplas, que estabeleciam alguns pilotis, mas também há correntes de três seguidas como um moto continuo (Lívia, Marcos e Fernanda) e há uma situação "de iguaria" de João inscrevendo-se no binomio Neto-Carlão numa triade rara, e generosa. Eu já estou com o texto do folder escrito há alguns dias e todo se sintoniza nesse espírito. Barrão escolhendo bandeiras marítimas para ser Barraul, criar um movimento de sinais com Raul, interconexões de signos, Brigida respeito a Edu, com uma surpresa sintética e própria de linguagens-mundos comuns (terras e ceús ligados), ou Lívia com um trabalho que poderia presentear a Marcos se não fosse que tem uma marca estranha para ser só isso. Há em tudo o que vou vendo e conversando uma distância mínima para saborear a aproximação. Assim como João falou dos afetos como patrimônio e o melhor trabalho de Travessias, algo inaúdito nos últimos tempos, eu lembrei de uma frase de Lula Vanderlei que dizia que a arte é uma das melhores formas de fazer amigos. Eu sempre imaginei que todas as formas entranham espiritus, afetos, pulsões em jogo...uma roda em movimento, abraços, Adolfo




Abraços, Adolfo

cortes







Respondendo à pergunta do João, o Espaço em branco entre 4 paredes é anterior sim, mas o trabalho de Londres, Partition que é de 2004, só tem espelhos por dentro de um dos lados - eu não queria aquela repetição em cima de repetição. E o lado de dentro que é espelhado fica virado para a entrada, e só que vai até o outro lado vê que tem um espelho por dentro também - e dali pode se ver refletido com um furo reletindo o espaço do outro lado ou mesmo com pedaço do corpo de alguém que esteja do outro lado.
Bjs,
T.

Encontro I

Pessoal,

Foi comentado durante a reunião na Caixa Cultural (aliás, no restaurante da frente) que faríamos um encontro entre artistas e equipe antes da abertura da exposição.
Falamos também em gravar o encontro para, quem sabe, transcrever algumas partes no catálogo.
Gostaria de propor um primeiro encontro por esses dias (para dar um gás nas propostas e no conteúdo que está abastecendo este blog) e outro mais próximo da abertura da exposição (após o 8 de agosto, quando o Marcos já estará de volta).
Acho que seria mais interessante se nos reuníssemos em alguma casa, ou ateliê, para gravarmos as conversas e tirarmos fotos. Alguém se habilita a disponibilizar o espaço?
Minha sugestão inicial de data é quarta-feira que vem, dia 23/07.

O quê acham?

--

LB

terça-feira, 15 de julho de 2008

A história do pó

O Raul citou esse texto e acho que vale colocar aqui.

A história do pó

Até onde é possível fragmentar? E depois de tudo fragmentado como voltar à totalidade? Da insignificância se pode retornar ao mundo significante? Fernanda Gomes submete seus objetos a um teste dessa ordem. Recolhe aquilo cujo destino é a insignificância. Coisas mínimas, irrisórias, quase imperceptíveis, raramente observadas são colocadas no lugar daquilo que merece uma atenção. Retiradas da insignificância e deslocadas para uma única função: serem vistas. Pois o olhar parece ser a única forma de tocá-las, o único possível contato antes que desapareçam. Por isso amarrar, colar, enrolar, juntar. Todas essas ações são modos de estabelecer uma coesão, evitar uma fragmentação maior e tentar dar um significado ao insignificante. Aqui, ali, acolá, mais próximos ou mais distantes, ora sugerindo um movimento ou um ruído, buscam juntos evitar afundar novamente no nada que é o lugar de onde vieram.

Quanto maior a fragmentação maior a perda de sentido, quanto maior a perda de sentido maior a presença do nada. Aqui cada um dos fragmentos sofre uma espécie de restauração e resignificação. Interrompido o processo em direção à insignificância permanecem num limite entre ser e não ser. Diante deles somos tomados por um certo estado de perplexidade. Pois é isso que o trabalho realiza, fazer de fragmentos coisas aceitando-os enquanto tal, fragmentos que continuam a ser, objetos indefinidos. Organizá-los no espaço de exposição é também uma forma dejuntar, colar, amarrar, resignificar. Fazer dos fragmentos uma totalidade outra, inédita, cujo sentido é apresentar a permanente e cotidiana ameaça do nada que existe e não percebemos – contar uma história a partir do nada que ameaça a História. Juntar, colar, amarrar são ações históricas quando só restaram fragmentos. O trabalho se utiliza da técnica do pó, e seu instante ótimo é quando a menor partícula material do ambiente humano passa de imperceptível a perceptível, quando cada um dos objetos oferece o seu quantum mínimo de significação e irradia um máximo de atenção. São objetos que tendem a desaparecer com a distância; aproximação e afastamento estabelecem a dinâmica do encontro com esses pós-readymades, que chegaram a pós sem nunca ser readymades. A desproporção entre a insignificância dimensional da coisa e a demanda de atenção que ela exige é a contrapartida autêntica à incessante hiper saturação aniquilante do ambiente cotidiano contemporâneo - por isso um pequeno mostruário arqueológico sem arché; limite último da circunferência sem centro; maior afastamento de qualquer princípio vigente. Duvidamos em que direção seguir a partir desses objetos; de onde viemos, onde estamos, para onde vamos, mais uma vez.

A parte sem o todo; é o que se anunciam: o todo desapareceu, a totalidade não é mais possível. Esses objetos se fundam na atualidade, nas micro ruínas do aqui e agora e testemunham o estrato inferior de uma história material da cultura contemporânea, o seu nível randômico elementar e desprezado, fronteira indistinta – como o pó – entre natureza e cultura na era da tecnologia mais avançada. Objetos cifrados de uma civilização pós-nuclear que falam, agora, de uma pós-história que só pode ser reconstruída a partir do pó – a história do pó. Tão frágeis, tão delicados e tênues por que assim antecipam e se oferecem como a antevéspera da destruição. Pode não parecer mas esses pequenos trabalhos não estão muito distantes das monumentais telas de Anselm Kiefer. É que eles ficam no outro extremo da parábola da destruição. Não têm a dimensão do monumento, mas a do dia a dia e dos objetos heróicos do cotidiano.

Paulo Venancio Filho

segunda-feira, 14 de julho de 2008

atravessamentos

Lendo o primeiro e-mail da Lívia e depois o texto do Manovich, fiquei me lembrando muito da experiência que tive com a Dani Lima.

Em 2002 eu emprestei o Espaço em branco entre 4 paredes para que a Cia Dani Lima fizesse uma performance registrada aqui em vídeo:



Depois veio o convite para pensar num espetáculo em conjunto. Eu escrevi textos sobre os dois trabalhos, a Dani também escreveu sobre o Falam as partes do todo?, assim como o Camillo. 






Resumindo, o Espaço em branco entre 4 paredes foi feito em 2002, quando eu ainda estava grávida, e o vídeo da performance foi filmado no Panorama de Dança desse mesmo ano, no Teatro Carlos Gomes - eu dirigindo as câmeras do João Vargas e do André, com a Branca à tiracolo, entre uma mamada e outra na escada de emergência. E o espetáculo começou a ser produzido quando a Branca tinha mais ou menos 8 meses. Quando eu ia aos ensaios tinhamos conversas longuíssimas às vezes com pessoas de fora da companhia também. Eu não ia a todos os ensaios e sentia muita falta disso mas ao mesmo tempo eu sentia um enorme prazer em vê-lo mais crescido depois daquele pequeno distanciamento. E um dia comentei com a Dani que naquele momento entendia o que era ser pai - ela amamentava diariamente o espetáculo e eu reconhecia o meu dna ali e o educava junto, apesar de não estar presente o tempo todo.

Eu vejo meus trabalhos com este olhar pensando no que é uma relação de diálogo, o conhecimento, aquilo que a gente aprende com o outro, estando ligado no mundo, e como diz a Lívia, absorve e transforma ao mesmo tempo.

Outra lembrança que me veio foi a da exposição individual do Ernesto que virou o 4 artists and I quando ele pediu emprestados trabalhos da Fernanda, do Cassaro, do Carlão e meus para expor junto com os seus na Butler Gallery em Kilkeny. Assim como na primeira performance da Cia Dani Lima, esta cumplicidade só possível por haver confiança, mas também confesso que gostaria de ter participado mais ativamente da montagem na Irlanda - senti uma sensação meio estranha ao ver a exposição apenas através de fotos e depois de montada.

Bjs,
T.

Planta da Galeria 2

Não consegui que a imagem ficasse boa... Mas de qualquer maneira já enviei essa planta por e-mail também.

Além da Galeria 2, conseguimos metade do corredor que divide as duas galerias!

ímpar par

Querido João,
até agora não entendi muito bem a matemática que faz com que havendo 12 artistas desenvolvendo trabalhos em "duplas", ou aos pares ( na verdade dupla aqui não diz nada, mas serve para abreviar o 1 em relação ao outro), você tenha ao mesmo tempo ficado sem par e fazendo par com outro par!
Eu estava preocupada com isso, de não ter ninguém fazendo o seu trabalho, fiquei me perguntando se eu conseguiria fazer (acho que não) ou se não estaria faltando alguém na lista (acho que sim). Mas agora, ao me dar conta deste enigma e da sua beleza ímpar, começo a achar que faz todo sentido esse desencaixe é muito mais interessante, ele é o elemento perturbador que não deixa parar, estagnar, cristalizar, emoldurar, etc é o vade retro do idílio, é o elemento cinético, o agudo. ih, me empolguei, paro por aqui mas continuo pensando, ainda tem muito assunto.
Um beijo,
Livia

Barrão manda noticias por email

e eu tomo a liberdade de reproduzir aqui...


> Oi Raul
> Comprei as bandeiras!
> Elas são de sinalização marítimas me lembram também os cartões vermelho e
> amarelo e a linguagem de códigos.
> Agora tenho elaborar um pouco mais a ideia de como trabalhar essas
> bandeiras, surgiram novas ideias!!
> Hoje elas vão para a lavaderia!
> Valeu !
> Grande Abraço,
> Barrão
>

abraco a todos

Talvez por estar mais desgarrado das parcerias, fico pensando se estas travessias não poderiam/deveriam ser mais amplas e não exatamente em duplas. Fiquei pensando no que Lívia escreveu, nas idéias de mimetismo, de absorção e transformações das coisas e do tempo. Acredito que a idéia de uma trama em que os caminhos [travessias] se a[travessassem], fosse mais adequada às relações que temos uns com os outros e com o projeto.

Fico pensando se não são mesmo as nossas vivências em comum – ou não – o que estamos buscando neste projeto. Este exercício de pensar no trabalho do outro, pelo que posso perceber nos depoimentos do Raul, da Tati, e no que tenho pensado, me parece – além de resolver uma proposição – um exercício de lembrar vivências comuns: atravessamentos poéticos, atravessamentos afetivos. Quando o Raul fala de ter visto um determinado trabalho no atelier da Daisy, lembrei dos trabalhos que vi lá quando estive em reuniões onde outros artista envolvidos neste projeto também estavam e dos comentários que fizemos.... está tudo emaranhado....

Apesar de procurar me focar no que me propus – fazer dupla com a dupla Carlão-Neto – este projeto tem me levado a lembrar. Talvez pq meu maior estímulo seja o fato de conhecer os artistas envolvidos, que são amigos de longa data – alguns muito próximos. Penso que talvez o mais interessante seja ampliarmos estas duplas, deixá-las mais ambíguas, mais triplas, quádruplas....

Gosto mesmo dos afetos sinceros que trocamos entre nós. Talvez seja este o melhor 'trabalho' desta exposição.

A Luiza fala em 'cumplicidade, amizade e anos de histórias públicas e privadas'. Adolfo fala que 'o fundamento do projeto é intercambiar poéticas'. Penso que isto deve acontecer de forma ampla!

Abraço a todos!

domingo, 13 de julho de 2008

Um telefonema no meio do domingo e um filme no fim

Barrão me ligou na hora do almoço. Estava na feira de antiguidades da Praça Santos Dumont no Baixo Gávea. Me disse q tinha encontrado 2 bandeiras dessas utilizadas na sinalização de navegação marítima e achava q isso poderia ser o trabalho dele para Travessias. Argumentou q tinha uma caráter geométrico q está presente em meu trabalho, q tem a ver também com um procedimento de apropriação e q ao costurar uma na outra ganharia uma caracteristica própria do trabalho dele. Gostei da conversa, gostei de imaginar o q Barrão me descrevia, gostei de ficar ali no meio do domingo pensando na exposicao durante uma conversa ao telefone com um velho e querido amigo. Bola pra frente.

PS:
Acabei o domingo no cinema assistindo o excelente filme do Schnabel O Escafandro e a Borboleta. Nervoso, envolvente, tenso e triste. Uma puta história contada com sensibilidade e competência. Recomendo aos amigos.
Vale lembrar que o filme rendeu a Schnabel o prêmio de direção no Festival de Cannes 2007 e no Globo de Ouro deste ano além de 4 indicaçoes ao oscar (melhor direção inclusive).

sexta-feira, 11 de julho de 2008

objeto para atravessamentos subjetivos


Lendo o texto do Adolfo sobre o título, lembrei-me de um texto do manovich (What comes after remix?) em que fala do remix como prática corrente na música mas ainda percebida como violação de direitos autorais em outras áreas. Nas artes plásticas, diz ele, a apropriação não implica num retrabalhar a fonte, o efeito estético resultando basicamente da transferência de um signo cultural de um contexto a outro, sem maiores modificações. O que eu acho mais divertido aqui é a possibilidade de modificar na própria fonte, ou naquilo que a gente imagina que seja. Gosto da idéia de camuflagem, de mimetismo, apesar de achar também interessante a idéia de mistura, talvez mais próxima de um remix imaterial, em que você já absorve e transforma ao mesmo tempo. Acho que coincidência de olhares também é bom de pensar.
bjs
L

quinta-feira, 10 de julho de 2008

containers






Outras idéias são em porcelana.
A primeira como nos pratos que fiz para o Museu Lasar Segall e nos baldes e bacias, só que agora entrelaçados nos furos.
E a outra colando os fragmentos/moldes do corpo em porcelana de modo invertido.
Também me lembrei do Puddle-Puzzle de 94!
Bjs,
T.

sutura

Oi Barrão e Adolfo,
os estudos em foto foram feitos em 2006, assim que saiu a escalação.
Eu estava expondo os trabalhos das peles, Peles (tear) e Pele (corpo), pensando sobre superfícies, corpos e fragmentos.
Fiquei me lembrando de vários trabalhos do Barrão, especialmente um desenho/colagem um papel rasgado colado com fita metálica prateada - acho que estava na Educação, Olha!, na Gentil.
O Barrão viaja na 4ª e combinamos de nos falar no sábado, o que você acha Adolfo?
Bjs,
T.






Imagens para Barrão

Barrão me disse q está pensando em misturar caixas de tábuas de madeira com louças saindo pelos cantos. Seguem então 2 imagens da série de trabalhos das caixas...


Cartoon é uma de 98/99 construída com tábuas de pinho e pregos que mede 200 x 200 x 360 cm. A foto é de Mary.


Sem braços e sem cabeças é de 2002 e mede 158 x 72 x 24 cm e 189 x 43 x 24 cm cada uma das peças. Também em tábuas de pinho e pregos. A foto é do mineiro Daniel Mansur.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A MANDALA DE FERNANDA GOMES

Uma forma de continuar a conversa iniciada por Raul em relação a Fernanda, é o anexo de um texto aparecido em Lápiz, n.173, Madri, maio, 2001, abraço, Adolfo

obs. acho que a tradução ao português foi de Fernando Gerheim com revisão minha...também em site www.baumgartnergallery.net/gomesbio.htm

A MANDALA DE FERNANDA GOMES
Espaço Agora/Capacete (Rio de Janeiro)
Adolfo Montejo Navas

No cenário renovado e múltiplo do objeto na arte brasileira, Fernanda Gomes vem introduzindo, desde o final da década de 80, uma poética particular, tão eqüidistante do próprio objeto como da instalação. De fato, sua obra necessita como poucas da natureza desta última, da imantação de um espaço onde os objetos e materiais podem criar seu próprio âmbito, certa distância e irradiação como uma mandala .

Nesta composição lírica de objetos, de uma ordem minimalista nada tecnológica, o vocabulário é formado por uma longa lista: cravos, fios, sacos de papel, ímãs, pedaços de madeira, cordas, garrafas, bolas, caixas, arames, entre outros utensílios e trastes pessoais que parecem salvos de um desastre, o da nossa vida que canibaliza tudo, que enfrenta cotidianidade e memória todos os dias. Nesta arqueologia do mínimo que a artista apresenta contra o esquecimento, contra a aura perdida das coisas, se erige uma obra que alcança uma condição imaterial sem perder a materialidade: como se cada objeto necessitasse ser revelado, como acontece com alguns poemas-objeto, que sua obra não deixa de incluir. Todas as peças apresentadas, encontradas ou intervindas, parecem realizar a mesma pergunta dupla: como estruturar a delicadeza a partir da própria fragilidade e re-equilibrar o tempo? Algo que só pode derivar de uma orientação oriental, quase zen-budista, que tem na procura do equilíbrio e na expansão da consciência seu horizonte de busca: "no fundo, tudo parece que combina e encaixa" reconhece a artista de forma cotidiana.

A exposição, depois de sete anos de intervalo e de movimento internacional, é significativamente realizada em um lugar alternativo do Rio, Espaço AGORA/CAPACETE, mantido por artistas que dinamizam a produção e o debate contemporâneo de forma crítica, e que se tornou em menos de um ano em uma das melhores referências das artes plásticas do Brasil. Não em vão, esta mesma leitura de transformação do mundo através da percepção artística é partilhada pela artista: " a arte é uma forma de fazer política".

Uma exposição de Fernanda Gomes quase sempre significa uma nova articulação de algumas peças já existentes e outras novas. E como a renovação de um diário íntimo, oferece um auto-retrato. A nova configuração é também uma obra que contém outras obras como fragmentos, e é na obra fragmentária onde, talvez, importe mais a unidade (como os românticos alemães intuíram em seu tempo). Assim, alguns elementos que aqui escapam ao tamanho habitual (janelas, cadeiras) introduzem outra escala no humano a equacionar, onde tudo volta a estar concatenado, até chegar a um ponto que rima com uma certa tensão que exige silêncio. Na nova constelação de elementos há um aumento de planos, de eixos, assim como de gradações, que podem também ser de luz. Há mais arestas verticais e pendem mais coisas do teto. Continua havendo uma pureza ensimesmada morandiana junto à impureza povera estilizada, e uma certa sintonia espiritual com Bispo do Rosário na "restauração" do mundo.

Não há centro de gravidade, apesar de poder encontrar um nível no solo no meio da nave, pois tudo são centros dos quais se desprendem círculos concêntricos como conexões de atmosferas. A mandala de Fernanda Gomes não converge para um ponto porque tudo são pequenas formas que se unem para chegar a um corpo, que pede ser percorrido. O caminho móvel desta mandala tem a ver com os fragmentos do mundo contemporâneo cujo centro está disperso e com a conseqüente noção de equilíbrio desejado. Neste sentido a instalação é uma balança múltipla de realidades - onde chega a entrar a palavra meditação ("Nada" e um dicionário aberto em "abraço") - ; instalação que funciona na nave como contrapeso plural, e onde encontramos a imagem sintética e dinamogênica da mandala, representando a superação das "oposições do múltiplo e da unidade, do decomposto e do integrado, do diferenciado e do indiferenciado, do exterior e do interior, do difuso e do concentrado, do aparente visível e do real visível, do espaço-temporal e do intemporal e extra-espacial" (dicionário dos símbolos de Chevalier/Cherbrant).

Leveza, peso, distância, memória, cotidianidade, tempo. Se a poesia está em qualquer coisa que se manifeste, em Fernanda Gomes ela fala: as conexões ainda estão abertas. Feita in situ, a instalação parece que sempre esteve ali.

Duas coisas sobre o título, escritas como projeto (I)

O título do projeto, Travessias Cariocas, funciona como leit motiv da exposição. Trata-se de valorizar duas figuras de nossa contemporaneidade artística, como são a intertextualidade e a fragmentação. É de praxe reconhecer no léxico de hoje, o termo de apropriação, de reconhecimento do outro, o apoio de nossa subjetividade na alteridade. A intertextualidade faz parte dos recursos e estratégias de grande parte dos artistas. A multifacetada fragmentação de nossos dias convida também ao reconhecimento de outras leituras do mundo, algo que Travessias Cariocas explicita de forma generosa. Como neste projeto cada participante deve escolher a poética de outro para desenvolver uma obra inédita para a exposição, o termo "travessias" se aplica por diversas razões: trata-se de seguir o trabalho de alguém como inspiração para se criar uma nova obra; trata-se de conhecer e acompanhar a obra do outro para poder definir a poética que se quer trabalhar; trata-se de acomodar dois artistas para que haja uma troca e uma seqüência conceitual. Portanto, o fundamento do projeto é intercambiar poéticas.

No projeto Travessias Cariocas se produz um moto contínuo artístico, já que todas as obras são ligadas umas às outras, ou seja, vinculadas, produzindo uma corrente estética diversa, plural, mas sintonizada. Travessias Cariocas, como seu nome induz, revela como as passagens dos artistas são importantes, como a noção de trânsito é fulcral nesta mostra. Ela não deixa de apontar para uma transversalidade.

Adolfo Montejo Navas

terça-feira, 8 de julho de 2008

Texto Montejo na Lapiz



Ainda sobre trocas... Adolfo Montejo escreveu a crítica abaixo para a revista espanhola Lapiz. É sobre a exposição Fitografias que apresentei na galeria Lurixs em 2007.

El tránsito de la visualidad urbana a otro registro linguístico forma parte de la poética en movimiento de Raul Mourão (Rio de Janeiro, 1967), de una cierta mundanidad popular que le aporta interdisciplinariedad y hasta “picaresca” artística. Una contaminación que no llega nunca a ser ilustrativa por el alto grado de síntesis que las imágenes producidas ostentan, por el proceso de decantamiento por el que pasan (experimentos, distorsiones, en suma, redimensiones). Próximas a ecuaciones estéticas donde la apropriación es siempre más conceptual que aparente, y la mera traslación/desplazamiento invalidada como simple estrategia.

Aunque todavía se escuchen los ecos de una serie reciente de trabajos (múltiplos) sobre el presidente de Brasil, Luladepelucia (de peluche) (2005), que agitaron las aguas públicas y artísticas por su contingencia política e ironía formal, lo cierto es que los signos estéticos en juego siempre enfatizan su polivalencia ambivalente, un juego cruzado de denotación y connotación semántica. Como sucede con Fitografias (2007) : fitas(cintas)-grafías. Una sintaxis visual que salta de dicción, de dial, para accionar el feed-back imagético que semiesconden. De hecho, aún siendo hechas en fórmica, son consideradas pinturas. Como objetos cromáticos. Por un lado, la impronta pop/geométrica que tienen sintoniza con las peculiares experiencias constructivas de Raymundo Collares, a pesar de que aquí no haya rastro alguno del ideario callejero (en este caso, los colores/códigos de las cajas de los vendedores ambulantes); por otro, las composiciones sin título aluden, como banderas sin cifra ni ideología, a un universo pluralizado por acordes libres, sin categorías. Y sin revisionismos.

¿Las mesas-cajas, esculturas? ¿Los dibujos computadorizados como vídeo? Las cajas que ahuecan las mesas, o que se hacen otra cosa, poste, móvil, consola falsa presentan un vacío taxonómico. Así, los dibujos de estas mismas piezas transformándose continuamente, sin definición fija. Este tripe de trabajos que lida con la transformación de formas/imaginarios/lenguajes acábase alimentando en la exposición como la verdadera identidad, su moto continuo. En el fondo de la imagen algo se mueve. Nada está tranquilo. Y la apuesta por unos objetos reelaborados es hasta ese punto ciego, inquieto.

ADOLFO MONTEJO NAVAS

Visita a camarada F.



Já q estamos falando de trocas segue aí um texto q escrevi em 2001 para uma coluna de um portal na internet chamado super11. É um mini-texto meio crônica sobre Fernanda Gomes.

Visita a camarada F.
Sábado a noite. Um pulo na casa de Fernanda Gomes para conversar e conhecer trabalhos recentes. E também para enfrentar copos e garrafas. Nada de música. Boca-fumo-pulmão, narina-napa. Fernanda mora em Copacabana e não tem tempo nem paciência para a bosta que anda por aí. A casa e o atelier se confundem. Há um quarto que seria o atelier mas na verdade os trabalhos vão ocupando a casa toda.

No corredor o fio dental usado por Fernanda e Fernando é agora um trabalho na parede. O trabalho não tem título, nenhum trabalho de Fernanda Gomes tem ou terá título. No meio da sala está faltando um taco, Fernanda encheu com sementes de cravo. Quando se fala em cravo se pensa em canela. No nosso caso aqui acho que a canela é mais embaixo. Aquele pedaço da perna que serve para localizar os móveis na escuridão. No quarto pequenas caixas, fios, linhas, a bancada, um pequeno travesseiro repousa em um velho livro aberto, bola feita de cabelos, o papel dos cigarros, agulhas, um saco pendurado no teto, copo.

Como Paulo Venâncio escreveu em A história do pó: Até onde é possível fragmentar? E depois de tudo fragmentado como voltar à totalidade? Da insignificância se pode retornar ao mundo significante? Fernanda Gomes submete seus objetos a um teste dessa ordem. Recolhe aquilo cujo destino é a insignificância. Coisas mínimas, irrisórias, quase imperceptíveis, raramente observadas são colocadas no lugar daquilo que merece uma atenção. Retiradas da insignificância e deslocadas para uma única função; serem vistas. Pois o olhar parece ser a única forma de tocá-las, o único possível contato antes que desapareçam…

Depois de 3 ou 4 horas no sofá resolvemos fazer nova arrumação na sala. Em apenas 4 minutos tudo está mudado. Nova paisagem. Cada trabalho está impregnado de raiva, força e graça. Cada trabalho está impregnado de vida. Fernanda Gomes é assim: Tá com sede? Toma um copo de poeira.

Saí do prédio confuso, perdido. Peguei a contra-mão. Colisão. O carro capotou. As quatro rodas pra cima. Parou um caminhão, saltaram cinco caras. Desviramos o carro e segui em frente. Um pouco amassado.

Raul Mourão

As Trocas

Marcos Chaves > Fernanda Gomes
Livia Flores > Marcos Chaves
Fernanda Gomes > Livia Flores
Barrão > Raul Mourão
Tatiana Grinberg > Barrão
Daisy Xavier > Brigida Baltar
Brigida Baltar > Edu Coimbra
Edu Coimbra > Tatiana Grinberg
Raul Mourão > Daisy Xavier
Ernesto Neto > Carlos Bevilacqua
Carlos Bavilacqua > Ernesto Neto
João Modé > Ernesto Neto e Carlos Bevilacqua


Amanda me passou a lista acima c a escalacao das duplas.
Seria bacana q Adolfo escrevesse um pouco sobre a visão q ele tem dos trabalhos que resultarão das "trocas". Se são trabalhos inspirados na poética do outro, se são trabalhos com a cara do outro, como se fosse o outro, um quase plágio, um trabalho a 4 mãos... Tem algum texto já escrito Adolfo?

Suíte

2 anos se passaram desde a especulação inicial minha e da Amanda, no tempo ocioso na galeria da Laura, de reunir algumas das figuras mais emblemáticas das artes plásticas que nos rodeavam naquele momento. Da minha parte, posso dizer que a vontade de realizar o “Travessias Cariocas” nasceu num almoço na casa do Marcos Chaves, onde muitos de vocês estavam presentes. Havia cumplicidade, amizade e anos de histórias públicas e privadas de um grupo que persiste até hoje.
A tal vontade aparentemente ingênua começa a criar forma neste blog, nos encontros, nas discussões, nos registros e, enfim, na exposição da Caixa Cultural.
Gostaria de agradecer a participação de todos e a confiança depositada no projeto. Agradecer especialmente ao Adolfo, que abraçou a idéia desde o início.
Aproveitem este espaço para multiplicarem o projeto.
Um abraço, Luiza